Monday, December 14, 2009

Ferreira Gullar fala sobre F. Pessoa

Ferreira Gullar eh poeta brasileiro, ensaísta, autor de vários livros de Ensaios, Teatro, Traduções, Biografia, Ficção, Crônicas, poesia, Antologias., na materia que escreveu para o caderno da Folha de Sao Paulo sobre as pessoas de pessoa, que achei neste site: http://www.pessoa.art.br/?p=540, ele esta tentando comprovar que Pessoa nao era um dramaturgo que se baseia em pessoas de verdade para criar a diversidade poetica dele, e sim um poeta multi-facetado que precisou criar outras personalidades a parte dele mesmo para poder "exibir" todo seu talento que nao cabia em uma pessoa so. Mas no meio dessa discussao, ha este trecho que fala de uma hipotese da personalidade dividida dele ter origens antes de mais nada hormonais:
 
Homossexualismo Irrealizado
Mas há um outro dado a acrescentar a esse quebra-cabeças: o homossexualismo irrealizado de Fernando Pessoa. Mais uma vez recorremos a suas próprias palavras: “Não encontro dificuldade em definir-me: sou um temperamento feminino com uma inteligência masculina. A minha sensibilidade e os movimentos que dela procedem, e é nisso que consistem o temperamento e a sua expressão, são de mulher. As minhas faculdades de relação -a inteligência e a vontade, que é a inteligência do impulso- são de homem”. Adiante ele diz: “Reconheço sem ilusão a natureza do fenômeno. É uma inversão sexual fruste. Pára no espírito”. Mas vejamos o que se segue: “Sempre, porém, nos momentos de meditação sobre mim, me inquietou, não tive nunca a certeza, nem a tenho ainda, de que essa disposição do temperamento não pudesse um dia descer-me ao corpo. Não digo que praticasse então a sexualidade correspondente a esse impulso; mas bastava o desejo para me humilhar”.
Esse texto deixa claro a drástica reprovação de Pessoa à prática do homossexualismo (que ele considera humilhante), assim como o temor de que, contra a sua vontade, esse impulso lhe descesse ao corpo e o submetesse. “Somos vários desta espécie, pela história abaixo”, afirma, referindo-se em seguida a Shakespeare e Rousseau, para sublimar seu receio “da descida ao corpo dessa inversão do espírito”, “como nesses dois desceu”. Seria descabido imaginar que, diante dessa ameaça, diante desse corpo que poderia a qualquer momento traí-lo, que Pessoa decidisse não viver, reduzir sua vida à vida da inteligência (sua parte masculina), e assim escapar à desgraçada possibilidade de tornar-se um homossexual? Não seria essa divisão interior -um homem e uma mulher na mesma pessoa- o início de sua despersonalização, da divisão do eu e ao mesmo tempo da invenção de outras personalidades, em lugar da sua própria, que lhe era, por pervertida, inaceitável? Por outro lado, a necessidade de ocultar esse impulso perverso não seria a primeira simulação que o levaria a tantas outras simulações?
Podemos responder sim ou não a essas hipóteses. Mas mesmo que respondamos sim, não esgotaríamos com isso o mistério da obra poética de Fernando Pessoa nem o enigma de sua personalidade, que dessa obra não se separa, porque, qualquer que seja a causa que determina o nascimento de seus poemas e a criação do seus heterônimos, a significação poética e o valor literário de sua obra pairam acima das explicações.
Não vamos, portanto, indagar agora pela origem de seus heterônimos, mas tentar compreender o que são eles. Num texto conhecido como “Apresentação dos heterônimos” e que foi escrito como prefácio a uma projetada edição de suas obras, em 1930, possivelmente, Pessoa afirma: “O autor humano destes livros não conhece em si próprio personalidade nenhuma. Quando acaso sente uma personalidade emergir dentro de si, cedo vê que é um ente diferente do que ele é, embora parecido” (…) “Afirmar que esses homens todos diferentes, todos bem definidos, que lhe passaram pela alma incorporadamente, não existem -não pode fazê-lo o autor destes livros; porque não sabe o que é existir, nem qual, Hamlet ou Shakespeare, é que é mais real, ou real na verdade.”
Ocultismo e visão olímpica
Nada nos autoriza, porém, a afirmar que os heterônimos “são” Fernando Pessoa, uma vez que ele pensa diferente deles1 e, em certas questões, o contrário deles. Dou como exemplo a carta a Marinetti, datada de 1917, em que ele diz que os sentidos só buscam “a razão física, exterior, superficial e empírica”, e não a razão metafísica, “que só se descobre pelo pensamento puro, numa pureza inteiramente emocional”, Com essas afirmações, Pessoa nega de uma única assentada tanto a visão de Caeiro (”pensar é não compreender”) como a de Álvaro de Campos, cujo sistema está “baseado inteiramente nas sensações”.
A adesão de Pessoa ao ocultismo contradiz inteiramente a visão olímpica de Ricardo Reis, como também a de Álvaro de Campos —voltado para o dinamismo da vida moderna— e a de Caeiro, para quem “o único sentido íntimo das coisas/ é elas não terem sentido íntimo nenhum”. Outras tantas divergências entre Pessoa e seus heterônimos estão nas suas respectivas estatisticas.
Diante dessas constatações cabe perguntar: se os heterônimos não são expressão de situações existenciais específicas, dramáticas; se, portanto, não expressam visões contingentes ou geradas por situações próprias a eles (como Macbeth ou Hamlet) e, ao mesmo tempo, não expressam a visão de Fernando Pessoa, então por que eles os criou? Para contradizer-se? Para, por intermédio deles, manifestar suas contradições sem ter que assumi-las ou negá-las? Se não é por nenhuma dessas hipóteses, talvez reste apenas uma: ele os criou por razões poéticas e não por razões filosóficas; por razões afetivas, emocionais, e não por razões lógicas. Criou-os para exercer as múltiplas virtualidades de seu talento, que mal cabia numa só pessoa. E, por isso, talvez, mais correto séria chamá-lo —desculpem o trocadilho irresistível— Fernando Pessoas.

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